2025Sobre o projeto
2ª Mostra de processos Casa Camelo
São 13:45 de uma quinta-feira. O início da tarde é marcado por uma chuva torrencial do lado de fora.
O portão ainda está fechado, e eu aguardo o tempo avançar para receber os artistas que, há 13 dias, tornaram a Casa seu local diário de criação.
Enquanto espero, preparo um café e caminho entre os trabalhos, que estão em constante atualização. Ontem, nada estava assim. Uma nova cor nas telas, a fotografia que se desfaz, o gesso que toma forma.
Tudo parece transpirar mudança. Busco perceber os detalhes, reparo nas escolhas, das mais sutis às mais definitivas. Cada uma delas parece contribuir para algo maior que ainda está por vir. Percebo que cada decisão reflete um processo criativo que nunca para, que se ajusta e evolui.
Passeio pelas cores intensas e linhas sinuosas das telas de Dercy, cuidadoso e atento às mudanças da tinta em seu processo. tlt alargou o tecido, transpôs a malha da parede para a mesa—será uma ação? As
pinceladas de Felipe estão mais soltas, as marcações menos definidas, a pintura me pede tempo. Daniel trouxe novos materiais: um tijolo, uma madeira, um sofá. Do outro lado, Bruno rasga a tela, criando tensão ao atear fogo nas imagens apropriadas de protestos.
Elis organiza o desaparecimento: o desenho irá sumir, mas a memória persiste. Maria desenhou muito ontem, e as manchas se tornam formas. Carol organizou seus desenhos, misturou com mais materiais—será que o plástico ficará no desenho? Lívia deixou o papel branco, e os recortes tomam o espaço, folhas e mais folhas. Daura dilui as imagens da memória encontrada, enquanto Beatriz interpreta e ficciona sobre o diário de Marli.
Os desenhos de Igor tomam forma: cabeças, corpos, martelos, cavalos, um por cima do outro. Sarah incrustou vidro no gesso, organizou imagens, experimentou o branco. Caule explicitou a tela e o gesto: cortes, cores, palavras. Lia desenha intensamente com seu carvão e água; vejo armadilhas e fico com vontade de um novo café. Pedro desagua a tinta, dilui a paisagem e cria novos lugares imaginados. Bruna criou ficções, novelas, poesias e conjunções de texto-imagem.
O espaço, que antes parecia conhecido, agora se apresenta como um campo de possibilidades infinitas e mutantes. E eu, na minha caminhada diária, me vejo parte dessa transformação.
Acho que preciso de mais um café.
Luiz Lemos,
30/01